No início de 2026, as autoridades de saúde globais voltaram seus olhos para a Índia, especificamente para o estado de Bengala Ocidental, onde novos casos do vírus Nipah foram confirmados, inclusive em profissionais de saúde. Diferente de vírus respiratórios comuns, o Nipah é uma zoonose de altíssima gravidade, com uma taxa de letalidade que varia historicamente entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade de atendimento local. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica-o como um patógeno prioritário, ao lado do Ebola, devido ao seu potencial epidêmico e à ausência de contramedidas farmacêuticas eficazes até o momento.
O quadro clínico inicial é traiçoeiro, pois se assemelha a uma gripe forte: febre alta, dores musculares (mialgia), dor de garganta e vômitos. No entanto, o sinal de alerta que diferencia o Nipah é a rápida progressão para sintomas neurológicos graves. Muitos pacientes evoluem em questão de dias para tonturas, sonolência excessiva e alteração da consciência, indicando uma encefalite aguda (inflamação do cérebro). Em casos severos, podem ocorrer convulsões e coma em 24 a 48 horas, além de complicações respiratórias agudas que exigem ventilação mecânica.
A transmissão ocorre principalmente através do contato com fluidos de morcegos frugívoros (o reservatório natural), porcos infectados ou pelo consumo de alimentos contaminados, como frutas ou seiva de tamareira crua. O que mais preocupa neste surto recente, contudo, é a confirmação da transmissão pessoa a pessoa, especialmente em ambientes hospitalares e entre cuidadores familiares. Isso exige protocolos de isolamento rigorosos, similares aos usados para outras febres hemorrágicas, para evitar que um caso isolado se transforme em um surto comunitário.
Atualmente, não existe vacina ou tratamento antiviral específico aprovado para o vírus Nipah; o manejo é inteiramente de suporte, focado em manter as funções vitais enquanto o sistema imunológico combate a infecção. Embora o risco de introdução no Brasil seja considerado baixo pelas autoridades sanitárias — dado que não importamos os vetores naturais daquela região —, a vigilância em portos e aeroportos permanece ativa. Para nós, médicos e profissionais de saúde, o caso serve como lembrete da importância da anamnese detalhada sobre viagens recentes diante de quadros de encefalite viral sem causa definida.