Um recente escândalo na Europa, envolvendo um doador de esperma portador de uma mutação genética hereditária ligada ao câncer, acendeu um alerta vermelho na comunidade médica global. O caso, que resultou na concepção de quase 200 crianças, expõe uma falha crítica nos protocolos de triagem genética de bancos de reprodução assistida. Do ponto de vista médico, a gravidade reside no padrão de herança: muitas dessas síndromes de predisposição ao câncer (como a Síndrome de Lynch ou mutações no gene BRCA) possuem transmissão autossômica dominante. Isso significa que cada criança concebida tem 50% de chance de herdar a variante patogênica, transformando uma solução para a infertilidade em um potencial vetor de doença grave para a próxima geração.
Historicamente, a seleção de doadores baseava-se excessivamente em questionários de saúde autorrelatados e histórico familiar, métodos que dependem da honestidade e do conhecimento do próprio doador sobre sua saúde. No entanto, muitas mutações cancerígenas possuem penetrância incompleta (a pessoa tem o gene, mas não manifestou a doença no momento da doação) ou surgem “de novo”. A ausência de sequenciamento genético completo (exoma ou painéis de câncer hereditário) como padrão obrigatório permitiu que gametas contendo “bombas-relógio” biológicas fossem distribuídos em larga escala, algo inaceitável com a tecnologia de sequenciamento de DNA acessível que temos hoje.
Para as famílias e as crianças afetadas — muitas das quais agora são jovens adultos — a descoberta impõe uma mudança drástica na gestão da saúde. Não se trata apenas de uma “má notícia”, mas da necessidade de iniciar protocolos de vigilância ativa muito antes da população geral. Essas pessoas precisarão de rastreios precoces, como ressonâncias magnéticas anuais, colonoscopies ou exames de sangue específicos, dependendo do tipo de mutação herdada. A medicina preventiva torna-se a única arma para mitigar o risco aumentado, o que gera um impacto psicológico e financeiro vitalício para famílias que buscavam apenas realizar o sonho da maternidade/paternidade.
Este incidente levanta um debate bioético urgente sobre o anonimato versus o direito à saúde. Na neurocirurgia e na oncologia, defendemos que o direito da criança de conhecer sua carga genética para prevenir doenças deve prevalecer sobre o direito do doador à privacidade absoluta em casos de risco de vida. O episódio força uma revisão das legislações europeias e mundiais, sugerindo que bancos de esperma devem não apenas armazenar gametas, mas atuar como guardiões da segurança genética, implementando testes moleculares rigorosos para garantir que o “dom da vida” não venha acompanhado de um risco hereditário evitável.