Trabalhando como médico em Portugal (Dr. Felipe Calani) 

Trabalhando como médico em Portugal 

Autor: Dr. Felipe Calani 

O relato abaixo foi escrito por Dr. Felipe Calani em seu Facebook. Felipe Calani era um jovem neurocirurgião em atividade no Rio de Janeiro/Brasil e decidiu mudar com sua família  para Portugal e iniciar uma nova carreira lá. 

Retirado do Blog https://fatimacalani.com/2017/06/01/trabalhando-como-medico-em-portugal/

Hoje, trabalho não como neurocirurgião, mas como clínico de urgência.

Quis escrever esse post para terem noção de como é aqui.

Meu começo não está sendo fácil mas não está ruim. Estou gostando de voltar a estudar várias coisas e ajudar mais pessoas.

Não tem almoço de graça … um passo para trás para dois para frente (objetivo, a especialidade. Se anestesia ótimo, se não der, tem CTI, Radio, etc. o importante é ser especialista, ganha-se uns 6 a 8 euros a mais por hora que no montante faz uma boa diferença e o trabalho é mais ameno).

Neurocirurgia é passado (pelo menos é o que eu acho por enquanto). Quero coisas novas para arejar minha vida e ter mais desafios. Talvez usar minha “expertise” em especialidades (neuroanestesia, neurointensivismo, neuroradiologia, etc.)
Então vamos lá, algumas comparações de quando trabalhava no Brasil:
1-) Distância

Ainda estou começando aqui, logo, não estou no “filé”, próximo a minha casa. Demoro de 40 min a 1h e 15m para chegar no trabalho. Entretanto, não pego trânsito (às vezes perco uns 5 a 10 minutos do transito do pessoal que vai para Lisboa, mas logo entro em outra estrada vazia. Além disso, estradas impecáveis, vistas fenomenais, sem sinais de trânsito e sem medo de arrastão ou assalto pelas motocas. Entretanto, no Brasil, onde me pagava melhor, demorava o mesmo tempo (Hospital Pedro II em Santa Cruz).
2-) Atendimento

Sem “barracos”. Não existe a falta de respeito que via diariamente com o profissional. Ninguém ousa levantar um dedo aqui. Quando levantam, são colocados no lugar rapidinho. Ninguém tem medo de ninguém aqui (afinal, vc pode estar falando com a ném do chefe do tráfico e levar uns tiros na saída do Hospital não ?). Urgências cheias, mas não tão cheias como nos hospitais onde trabalhava. Vc pode fazer uma anamnese e exame físico decentes. Tudo se pede no computador (labs, imagem, prescrição, solicitações à enfermagem, etc.). Colocamos o cartão da Ordem dos Médicos em um leitor e esse é o seu carimbo. Não se usa caneta. Paciente sai com impressão do resumo do que escreveu para entregar ao Médico de Família para demais orientações. Fazemos tudo no sistema Alert (para quem tiver interesse de conhecer, achei esse link mostrando como é). Importante esclarecer que eles utilizam o Sistema Manchester de Classificação. Nós que conseguimos equivalência e somos generalistas, atendemos pacientes verdes e amarelos (menos graves) e os colegas da Medicina Interna (especialidade, por prova como nossa residência médica, 5 anos de duração) atendem os laranjas e vermelhos. Aproveito para mostrar a duração de cada curso no Internato Médico por aqui (Lista_duração_especialidades_12_10_2012.pdf).
Muito atendimento tosco também, com uma triagem falha (peguei um doente que queria antibiótico para cárie … isso ao meu ver, não deveria nem entrar, mas não gera nenhum estresse, apenas o volume desnecessário que vai minando ao longo do dia). Atendo em 24h, aproximadamente uns 20 a 30 pacientes, mas resolvo todos (ou quase todos, ficando 1 ou 2 para o próximo terminar).
3-) Transferência

Sinto falta de especialistas onde trabalho. Neurocirurgia por exemplo só tem em um ou outro hospital. Então o paciente tem que ser transferido. Ambulância é do Hospital e não demora quase nada.
4-) Acesso à toda informação do paciente

Toda a história dele no Sistema de Saúde está no computador. As consultas ambulatoriais (o que os especialistas escreveram, os remedios que foram prescritos, relatórios dos exames, etc.) ficam listadas. Vemos também as consultas de Urgência anteriores e isso dá uma idéia do problema atual.
5-) Descanso

Confesso que descansava bem mais quando especialista. Hoje descanso umas 2 a 3 horas no máximo. Em um dos hospitais que trabalho, durmo no chão (nada diferente do Pedro II onde as camas quebravam) mas por opção minha. Poderia dormir na maca onde os doentes são examinados (como acontece em muitos lugares no Brasil também) mas sou meio avantajado para isso. Não tem paciente querendo entrar no estar médico para fazer barraco porque alguns profissionais estão no descanso em horários mais vazios. Não quero nem imaginar o que aconteceria a este indivíduo se ocorresse isso aqui.
6-) Comida

É paga. Não gratuita como no Brasil. Mas não me lembro de quase ninguém comer no refeitório porque a comida era de péssima qualidade. Logo, nada diferente. Entretanto, paga-se 4.50 euros para comer uma refeição boa, com escolha de 3 carnes (tipo bacalhau, frango, porco, peixes, outro dia até provei arraia !) e o restante como quiser (arroz, batata, legumes … sinto falta do feijão, mas fazemos em casa), uma lata de refrigerante e uma sobremesa. Refeitórios amplos e limpos e não tão barulhentos. 

Na copa, tem biscoitos, pão com manteiga, suco, geladeira, mesa, arroz-doce, entre outros.
7-) Material

Aqui, escolhemos a luva de procedimento (P,M ou G). Não falta nada. Gasometria vem em um kit pronto. Eletrocardiograma, dependendo do lugar, é um técnico que faz. Aparelhos de pressão no consultório (infelizmente os paciente amarelos e verdes não vem com sinais vitais checados) . Termômetro timpânico. Aparelho de pressão digital, só colocar e anotar. 

Oftalmoscópio e otoscópio em cada sala. Maca em cada sala.
😎 Respeito

Aqui há bastante respeito com o médico e a enfermagem. É tudo, “Sr. Doutor” pra cá e pra lá. Ouvem, compreendem, não questionam. As pessoas não saem entrando pelas portas, por onde não devem passar, etc.
9-) Colegas

Tenho muita ajuda nesse começo de adaptação a um novo sistema e na clínica geral, muito importante. Meus colegas de urgência são muito solícitos (uma maioria) e entendem minha situação (neurocirurgião virando clínico … não é boa coisa haha). Entretanto estudo todos os dias para me reciclar e aproveitar isso também para a prova de residência aqui. 

Confesso que estou me aborrecendo um pouco com colegas mais velhos aqui (uma minoria) e de outras especialidades que simplesmente te acham um zero. Como sei do meu passado, do meu currículo, às vezes aperto aquele “botão” e outras eu confronto e tento colocar a pessoa no seu devido lugar. Mas como não posso me dar ao luxo por enquanto (pois estou no começo, tenho que fazer um nome, etc.), tento evitar. Eu nunca solicitava um parecer antes de conversar pessoalmente e ver se era algo que podia resolver … mas até assim, levo coice. Logo, acho que devo começar a pedir os pareceres sem conversar mesmo. Melhor solução.
10-) Diferenças

Aqui não tem radiologista. Tudo por teleradiologia. Radiologistas acho que ganham menos pois dão laudo de casa. Não temos como discutir com radiologistas (no meu caso queria para aprender, como fazia no Brasil). 

Enfermagem em maior número, porém fazem mais do que no Brasil (o técnico de enfermagem quase nada faz, administração de medicamentos só vejo enfermeiro fazer, técnico é para levar paciente, colocar na maca, virar, limpar, dar comida, etc.). 

Estacionamento mais amplo no hospital.

Limpeza e organização impecáveis. 

Poucos paciente no corredor (aqui tb tem !)

Horario de 9 as 19 e 8h as 20h, mas tb existem horários alternativos como plantões de 15 horas (3 sendo 3 até meia noite e dois de meia noite até outro turno). 

Não se escreve na prescrição. Todas as medicações já estão prontas no sistema … é só clicar. Mesma coisa com o laboratório, vc vai clicando nos exames que quer. Troponina de alta sensibilidade no público. 

Um hospital que trabalho, colhemos a gasometria e depois coloca-se em um tubo que vai por uma cano, chegando direto ao laboratório no andar superior (vi tentarem no Hospital Miguel Couto no Rio, onde trabalhava, mas não sei se ainda funciona). 

Chamamos os pacientes por alto-falante, não tem que ficar se levantando a todo momento para chamar ninguém. 

Poucos portugueses nas urgências (muitos estrangeiros, angolanos, venezuelanos, bolivianos, romenos e brasileiros). Os portugueses estão se especializando e/ou saindo de Portugal.
11-) Valores

Ganhamos de 19,25 a 25 Euros/Hora como generalistas, 26 a 28 euros como especialistas e 40 a 50 euros como anestesistas. Parece pouco, mas depois que vc vê o custo de vida, vê que dá para viver uma vida boa, sem luxo (nesse começo pelo menos, onde só eu estou trabalhando e Fátima estudando) mas sobra um pouco para guardar. No Brasil, ganhávamos muito bem porém gastávamos muito para manter um padrão confortável e com segurança. Sobrava pouco. Aqui não há ostentação, a não ser de currículo. Carro, roupa, etc. ninguém liga.
Acho que é isso, se esqueci de falar algo me lembrem !
Espero que gostem, Fiz pensando que gostariam de saber como é por aqui, seja por curiosidade ou interesse.
Em suma, se os colegas que não vêem a mínima possibilidade de dar esse passo para trás e passar por tudo isso que estamos passando, uma dica: nem percam tempo!
Às vezes, pode-se tentar a sorte de conseguir revalidar a especialidade, mas não será de graça. Terá sacrifício, doação de tempo sem receber por isso, anos a mais, gastos sem retorno e dupla função (fica como indo em estágio quase diário e tem que tirar forças para trabalhar depois para pagar as contas em plantões de generalista). 

A não ser que você tenha um MEGA currículo e os portugueses “abram as portas” para você de mão beijada (como se vc fosse um “superstar” para eles e eles querem você de qualquer jeito e que, mesmo assim não acredito, pois ninguém quer ter seu brilho ofuscado não é mesmo ?), acho que será dessa forma.
Por isso minha decisão de começar do zero e encarar o problema de frente.
Vamos ver no que isso vai dar e quero ler esse post nas Lembranças do Facebook em alguns anos !”



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