Cirurgia de Risco ( Revista Dr! )

Nosso texto na Revista DR! Crônica: Cirurgia de Risco pág. 26-27 https://goo.gl/zCakiL  

Cirurgia de Risco

Autor: Júlio Pereira

Sentei na cadeira em frente a atendente. Ela só queria meus documentos. Só isso. Nem cara de compaixão ela fez.

  • Bom dia. O senhor vai internar para operar o tumor cerebral?
  • Isso
  • Carteira do convenio
  • Aqui
  • Carteira de identidade
  • Aqui
  • Trouxe os exames?
  • Sim
  • O senhor tem direito de ficar na enfermaria humanizada. Deseja pagar mais R$300 por dia e ficar num apartamento humanizado?
  • Não
  • A enfermaria humanizada você divide banheiro, não tem cama para seu acompanhante e o quarto é com outra pessoa.
  • Eu sei mas prefiro
  • ok!  Assine aqui, coloque essa pulseira e pode subir.

Eu já estava pronto para internar. Estava usando uma camisa polo, calça jeans e minha mala de mão. Passei minha vida em hospital mas sempre usei outras portas, nunca a entrada de pacientes. Não conhecia esses setores.

  • Pode me seguir. Vou te levar até o quarto do senhor.
  • Obrigado

Segui-la por um longo corredor, um desses corredores de hospital. Longos, largos e cheios de pessoas doentes andando. Em alguns, momentos passam médicos ou enfermeiras apressados. Há menos de 3 dias, eu passava assim, correndo … Agora, não tenho pressa, tenho 8 dias para esperar. Não farei nada, só farão um procedimentos em mim. Só me resta esperar pacientemente.

  • Esse é o quarto do senhor, Apto 2604.
  • Obrigado!

Ao entrar no quarto percebi um senhor de 60 anos, deitado na cama ao lado com um óculos na ponta do nariz. Ao lado da cama dele, eu podia ver uma bíblia e outros dois livros que eu não conseguia ler o titulo. Com um sorriso mecânico me recebeu e falou:

  • Bom dia. Eu me chamo Augusto. Fique a vontade! E o que precisar é só falar mas devo estar indo embora hoje.

Ao lado tinha outra cama vazia. Sentei na ponta da cama para ficar distante do Sr. Augusto. Não queria interagir como ninguém.

Todos os quartos de hospitais são iguais. Apenas nas prisões e nos hospitais as pessoas perdem seu direito de ir e vir. E alguém pode invadir meu quarto, para perguntar se estou bem ou para me dar algum remédio.

As duas janelas grandes laterais dão visao a uma arvore. Talvez o único verde que se pode ser visto no hospital, no mais tudo é cinza/branco. As roupas dos profissionais são brancas e me deram um camisa e calça cinza. Essa seria minha nova roupa nos próximos 8 dias. Tudo é cinza. Tudo é igual. Apenas o meu código de barra da pulseira é único.

A Selma (técnica de enfermagem) entrou e se apresentou, ficou 8 minutos no quarto, mediu minha pressão, frequência cardíaca, temperatura… E disse que a cada 4 horas retornara para conferir se algo mudou. Tentei explicar para ela que isso era desnecessário mas foi em vão.

Nesses oito dias minha rotina será:

  • Selma entrará no quarto a cada 4 horas
  • Visita da família/amigo de 1 hora, 2 vezes por dia.
  • Telefonemas dos parentes, acho que 30-60 minutos por dia.
  • Visita dos médicos, total de 3 por dia. Acho que mais 30-60 minutos.

Terei muito tempo para escrever. Resolvi que não falarei mais sobre o meu passado, como é ser médico, neurocirurgião ou sobre meu primeiro livro “após um tumor cerebral”. Acredito que um ciclo se fechou com ele. Só quero falar dessa internação, a primeira da minha vida. Não importa quem fui ou serei. Agora sou o paciente do leito  2604.

Nosso texto na Revista DR! Crônica: Cirurgia de Risco pág. 26-27 https://goo.gl/zCakiL  

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